Quarentenada

Eu não sei nem por onde começar. Tanta coisa já rolou ladeira abaixo, tanta água já molhou esse meu rosto que hoje to até ressecada por dentro. Parece que perdi o fio da meada por um tempo aqui, mas sempre segurando naquele último fiapo de nylon que se puxar desfia todinho o tecido sabe?

Mas como vocês já devem ter percebido, eu sou de lua, de fases mais ativas nas redes sociais e de outras mais escondidinha na moita, apenas observando tudo que tá rolando e sem vontade para agir. Mas a verdade é que a criatividade quando dizemos que sumiu é que ela está se acumulando em algum lugar do nosso ser. Pelo menos é assim comigo, passo tantas horas, tantos dias sem escrever e quando acontece, acontece de enxurrada. Percebi isso no dia que preenchi um cartão de aniversario que era pra ser dividido com outras pessoas,  e acabei usando uma página inteira só pra mim. Quando começo com papel e caneta na mão, ai é aquela coisa sem freio.

Esse primeiro parágrafo de cima escrevi em um tempo que eu nem sonhava que hoje o mundo estaria parado, em uma pausa longa e monótona. Voltei a escrever aqui hoje, semanas depois, dia 31 de Março e já fazem 3 semanas que estou de quarentena em casa. Não somente eu como muitas milhares de outras pessoas estão agora, neste exato momento, presas em casa, vivendo um tipo de prisão domiciliar. Dependendo do lugar onde você se encontra, sair na rua pode até gerar multas ou mesmo prisão. E não, não estou falando que estamos vivendo um apocalipse zumbi estilo The Walking Dead, mas a sensação é a mesma. O que tá rolando é que um vírus chamado Corona – ou COVID-19 se preferir, – está causando mortes em massa no planeta neste instante, e ele se espalha muito rápido e com muita facilidade. Tudo começou na China e hoje já está em quase todo o globo.

Já foram milhares de pessoas infectadas e outras milhares mortas, com uma velocidade que eu nunca vi antes. Esse vírus que de acordo com os estudiosos tem a imagem semelhante a de uma coroa, entra no corpo humano e acaba causando uma gripe extremamente forte e insuficiência pulmonar, levando embora pessoas de todos os tipos, da classe alta e baixa, brancos e negros, homens e mulheres e principalmente os idosos. A população do norte da Itália já foi quase dizimada a esta altura, atingindo o numero de 969 mortes em um único dia. Médicos estão tendo que escolher quais pacientes salvar e crematórios já atingiram sua capacidade máxima. Caixões lacrados estão sendo enterrados onde muitas famílias não tiveram a chance de se despedir de entes queridos. Isso acaba com o emocional de qualquer um.

Aqui nos Estados Unidos, o estado onde vivo, Washington, foi o epicentro do país, a primeira morte foi aqui perto de casa em North Seattle. E isso me assusta pra caramba. Mas como todo brasileiro, eu não desisto nunca e não achei que isso iria ser tão grande e bombástico como está sendo. E o fato é que já chegou no Brasil, já faz tempo, e claro que  me preocupo com meus pais e as pessoas que mais amo que lá se encontram, mas tenho que manter a cabeça no lugar diante de tudo isso. De um lado eu tendo crises de ansiedade e do outro a minha chefe tendo crise de pânico, por ter de ouvir diariamente e o dia todinho sobre Corona, ouvi tanto no começo que comecei a ter pesadelos. 

Nunca imaginei que fosse viver para ver isso, para ver o mundo em colapso em todos os aspectos. Nas prateleiras dos mercados as coisas começaram a sumir e papel higiênico começou a ficar cada vez mais escasso e se tornou um item valioso, assim como também o álcool em gel.

Mas é aquela coisa que minha mãe sempre diz: ‘Tem males que vem para o bem’. E esse pode estar sendo um exemplo disso, o bem que este vírus está fazendo é que a humanidade está trancada em casa, não existe mais aquela coisa frenética de sair todo dia para trabalhar, enfrentar horas de trânsito  no carro ou no ônibus, emitindo não sei quantas toneladas de CO2 por dia. Não existe mais aquela pressa que muitas vezes não sabemos nem o por quê de estarmos correndo, aquela correria pela idéia do consumismo inalcançável que vivemos uma vida inteira para atingir e muitos de nós não iremos nem aproveitar os frutos do que plantamos.

O planeta está podendo respirar novamente no meio do que chamamos de caos, porque na verdade o caos já estava instaurado há séculos, o caos que a humanidade criou por ser ambiciosa, e muitas vezes egoísta, por pensar em atingir somente os próprios objetivos e não ligar para as consequências que isso tudo pode causar no planeta. E veja só o quanto de mal o ser humano fez em todos estes milénios. A Terra precisava deste respiro, precisava apertar o botão de resetar e dar uma segunda chance para essa espécie que só o que fez foi explorar e abusar dessa grande pedra que chamamos de casa. Que tipo de gente é essa que tem uma casa tão grande e provedora de recursos naturais, que não cuida. Já parou para pensar que você aí que esta lendo isso aqui agora – se chegou até aqui, muito obrigada – já pensou você que trabalha horas dobradas e deixa de fazer diversas coisas para poder guardar mais dinheiro e poder finalmente comprar a casa dos seus sonhos. Você finalmente a compra e ao invés de cuidar para que dure, simplesmente começa deixar tudo sujo, coisas por fazer e outras tantas quebradas sem concertar, infiltrações começam a comer a casa de dentro pra fora, e você só senta e não faz nada. O que vai acontecer eventualmente é que você vai ficar sem casa quando o teto cair sobre sua cabeça, e adivinha só? Não terá como fugir ou mudar de casa, porque você não será merecedor de outro lar e não vai ter outro pra comprar. E é isso que acontece quando não cuidamos do planeta, e se não aproveitarmos esta oportunidade de recomeçar e aprender a cuidar melhor de tudo que nos cerca, uma hora a casa vai cair para nós também meu irmão.

Talvez seja hora do ser humano criar um novo normal, porque o de antes da quarentena não pode voltar mais. As coisas não podem voltar ao ‘normal‘ sendo aquele um normal nada saudável.

Nesse novo ciclo que passamos agora, também percebo que eu, do alto da minha ansiedade, vejo que eu fugia de mim mesma em muitas horas do meu dia. Sempre que me encontrava sozinha e livre para fazer o que quisesse, o que eu fazia era me entupir de informações de todos os cantos, seja lendo, vendo vídeos na internet, filmes e séries. E agora, que estou a tanto tempo dentro de casa, trabalhando dobrado pois a host kid está sem escola, vejo que esse mecanismo de preencher meu tempo com coisas aleatórias não é somente para fugir do ócio, mas também para fugir dos meus próprios pensamentos mais profundos. Hoje vejo que minha ansiedade chegou a um nível onde acabei por viciar meu cérebro em informação. Aquele hábito de ir dormir vendo as últimas noticias e acordar com o celular na mão checando as notificações que perdi enquanto dormia. Isso virou parte de quem eu sou.

Conversando com um dos meninos aqui de casa, percebi que não me lembro de como é ser uma pessoa sem ansiedade. Isso porque só fui diagnosticada com 16 anos, eu vivi para caramba sem ansiedade mas eu não me lembro. Triste.
Você que tá em casa nessa quarentena, mas não está trabalhando, já parou para pensar que toda vez que se sente entediado na verdade você está fugindo de estar consigo mesmo? Talvez este seja um tempo de reflexão também, não somente de reflexão sobre o planeta como um todo e nossas ações sobre ele mas uma reflexão de dentro para fora, com nós mesmos. É hora de nos conhecermos melhor. É hora de curar a alma.


Um comentário sobre “Quarentenada

  1. Muito lindo e reflexivo…devemos usar como medida para todos nós e trabalharmos intimamente…com certeza ficaremos bem melhores…
    Torço por você e por aqueles que tiverem a coragem de se olhar por dentro e buscar a alegria de viver com coisas muito simples …é isso que precisamos,….. simplicidade.

    Curtido por 1 pessoa

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